Carla Zambelli deixa o Brasil após condenação no STF

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A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) comunicou, nesta terça-feira (3), que deixou o Brasil poucos dias após ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 10 anos de prisão, além da perda de mandato. A decisão foi motivada pelo seu envolvimento na invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O anúncio foi feito em uma entrevista ao canal AuriVerde, no YouTube. Na ocasião, Zambelli explicou que, inicialmente, buscava tratamento médico no exterior e que pretende formalizar um pedido de afastamento não remunerado da Câmara dos Deputados.

— “Estou fora do Brasil. Já faz alguns dias. A princípio, buscando um tratamento médico que eu já fazia aqui [sem revelar o local]. Vou pedir afastamento do cargo”, declarou.

Instalada na Europa e prometendo denúncias internacionais

A deputada afirmou que está na Europa, onde pretende permanecer, amparada por sua cidadania europeia. Zambelli também disse que não considera sua saída como uma fuga, mas como uma forma de resistência.

“Não é abandonar o país. Não é desistir. Muito pelo contrário: é resistir. É voltar a ser a Carla que eu era antes das amarras que essa ditadura nos impôs”, afirmou.

Ela também prometeu levar sua versão dos fatos para organismos internacionais:

“Vou denunciar isso em todas as Cortes e instituições europeias que eu tiver acesso”, completou.

Por que pôde sair do país?

Apesar da condenação, não havia nenhuma restrição judicial que impedisse Zambelli de deixar o Brasil. Seu passaporte estava liberado, e ela ainda tem direito de recorrer da sentença, o que mantém sua liberdade até que todos os recursos sejam julgados.

Condenação no STF: o caso da invasão ao CNJ

A decisão da Primeira Turma do STF, tomada por unanimidade, se refere à invasão dos sistemas do CNJ em janeiro de 2023. Segundo as investigações da Polícia Federal, Zambelli teria sido a mentora intelectual do ataque cibernético, que resultou na emissão fraudulenta de um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes.

O hacker Walter Delgatti Neto, autor da invasão, declarou que agiu sob orientação direta da parlamentar. Delgatti revelou que recebeu um texto escrito por ela para ser inserido no sistema e foi pago em pelo menos R$ 13,5 mil.

Perda de mandato ainda depende da Câmara

Embora a sentença determine a perda do mandato, a cassação não é automática. Cabe à Câmara dos Deputados decidir se irá ou não concretizar essa medida. Enquanto isso, a inelegibilidade por oito anos já está em vigor.

Defesa contesta a decisão

Os advogados de Zambelli protocolaram recurso no STF, alegando que houve cerceamento de defesa. Segundo eles, não tiveram acesso completo às provas, como os 700 GB de dados armazenados na plataforma “mega.io”.

A defesa pede que, diante dessa suposta irregularidade, o STF permita o acesso integral aos documentos, anule a condenação e reverta as penalidades, incluindo a perda de mandato.

Rompimento com Bolsonaro

O relacionamento político entre Carla Zambelli e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se desgastou desde o episódio em que a deputada perseguiu, armada, um homem em São Paulo na véspera do segundo turno das eleições de 2022.

Em março, Bolsonaro chegou a responsabilizar diretamente Zambelli pela derrota eleitoral.

“Aquela imagem da Carla Zambelli perseguindo um cara… Isso tirou nosso mandato. Teve gente que anulou o voto por isso”, disse Bolsonaro, em entrevista.

Zambelli rebateu de forma sucinta:

“É mais fácil culpar outra pessoa quando se perde alguma coisa”, respondeu.

Saúde frágil e risco na prisão, segundo ela

A deputada tem usado problemas de saúde como argumento para justificar sua saída do Brasil e sua situação jurídica. Ela afirma ser portadora da síndrome de Ehlers-Danlos, uma condição genética rara que provoca deslocamentos frequentes nas articulações. Além disso, relatou problemas cardíacos e depressão.

Em maio, declarou publicamente que não resistiria fisicamente a uma pena de prisão:

“Meus médicos são unânimes em dizer que eu não sobreviveria na cadeia. Isso vai ser apresentado no momento oportuno”, afirmou.

Campanha de doações via Pix

Enfrentando dificuldades financeiras, Zambelli lançou, no dia 19 de maio, uma campanha pública de arrecadação de dinheiro via Pix. Segundo ela, os recursos seriam utilizados para pagar multas impostas pela Justiça.

“Essa é uma batalha por todos nós”, escreveu nas redes sociais. Ela afirmou que fez o pedido com o “coração apertado”, por não ter condições de arcar sozinha com os custos judiciais.

jcjoinville

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