Nas últimas duas décadas, lápides e túmulos do Cemitério do Imigrante passaram por processos de conservação e monitoramento. Neste trabalho foram recolhidos centenas de artefatos ornamentais, gradis, cruzes, lápides de cerâmica, ferro esmaltado e em porcelana, entre outros objetos danificados pela ação do tempo ou vandalismo. O acervo estava provisoriamente armazenado em um espaço na Casa da Memória. Contudo, apesar de guardados, o ambiente era improvisado e a salvaguarda pouco efetiva, uma condição que agora vai mudar.
O projeto “Instalação de reserva técnica para o acervo do Cemitério do Imigrante junto à Casa da Memória” viabilizou a limpeza, higienização e catalogação do material, bem como a aquisição de um arquivo deslizante específico que proporciona o armazenamento dos itens de forma segura.
A proposta é da Cultura Alemã Joinville e foi viabilizado pelo Sistema Municipal de Desenvolvimento da Cultura (Simdec – edição 2023), na modalidade de Ações Culturais Voltadas à Memória, Patrimônio Material e Imaterial da Prefeitura de Joinville, executado por intermédio da Secretaria de Cultura e Turismo (Secult).
“Trata-se de itens de especial valor histórico e cultural, que depois de restaurados poderão ser colocados em seus sítios originais ou compor o acervo histórico do município”, explica a historiadora e especialista em acervos Dolores Carolina Tomaselli, diretora executiva da entidade e uma das coordenadoras do projeto.
“O material ficará guardado de forma segura e organizada. Depois de restaurados, os itens poderão ser colocados em seus sítios originais ou compor o acervo histórico do município. Além da salutar conservação das peças, a coleção ficará acessível aos pesquisadores”, diz ela.
Memória – Para Dolores Tomaselli, o objetivo maior do projeto “Instalação de reserva técnica para o acervo do Cemitério do Imigrante junto à Casa da Memória” é dar dignidade ao acervo que está fora do seu local precípuo. “Temos profissionais com olhar especializado para dar salvaguarda a este material”, reforça. Ainda nesta fase, será possível reintegrar peças quando identificado o túmulo originário, a exemplo das cruzes.
Segundo ela, os artefatos também revelam o surgimento do “comércio associado ao sepultamento” no final do século 19 em Joinville, o que até então era importado pela Cia. Hoepcke. “Da mesma forma que havia a produção dos caixões, também havia cruzes já prontas e, quando necessário, se colocava a inscrição”. Com o passar do tempo, a indústria evolui para a produção de lápides de porcelana e, finalmente, as de ferro esmaltado com a foto do falecido estampada.
Acervo – A instalação da reserva técnica proposta pela Cultura Alemã Joinville caminha em paralelo com outro projeto, o de restauração do Cemitério do Imigrante assinado pela Associação Observatório do Patrimônio Histórico-Cultural (O.Pah) e viabilizado pela Fundação Catarinense de Cultura por meio doPrêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultural (edição 2024), na categoria Patrimônio e Paisagem Cultural.
Gessonia Leite de Andrade Carrasco, mestre em arquitetura e urbanismo e especialista em conservação de obras sobre papel – e a maior estudiosa do Cemitério do Imigrante, responsável por diversos projetos de inventário e de intervenções de conservação nos túmulos –, faz a interface entre os projetos, além de coordenar a recuperação e catalogação das peças que irão para a reserva técnica. Ela explica que na proposta da Cultura Alemã Joinville o trabalho está focado na recuperação e catalogação de artefatos de grande porte, como cruzes, gradis e lápides em pedra.
Especificamente as cruzes (primeiras peças a serem catalogadas) são de túmulos de famílias recorrentes na história de Joinville, como Trinks, Colin Delitsch, Lepper, por exemplo. “A maior parte delas é de ferro fundido e tem as inscrições dos dados da pessoa falecida em relevo”, observa. “Algumas são fixadas na lápide com outro tipo de metal, como liga de cobre, o latão.”
Segunda ela, alguns desses artefatos foram importados da Alemanha, mas em outro período eram fabricados em Joinville. “Durante pesquisas, encontramos peças confeccionadas na Metalúrgica Otto Bennack”, conta – empresa instalada em 1893 onde atualmente é a rua 7 de Setembro, esquina com a Itajaí, e que no final da década de 1930 iria dar origem à Fundição Tupy.
Já os gradis (elementos que cercam os túmulos) são na sua maioria de ferro forjado, um trabalho mais artístico. Para Gessonia, a riqueza desse material está na diversidade de formas (ora retas, ora orgânicas). “Temos gradis que remetem ao estilo art decor, outros tem inspiração no gótico e até art nouveau”, mostra. Um destaque desse acervo é o gradil do túmulo de Gustav Adolf Teuber (catalogado como número 384) confeccionado em ferro e adornado com elementos produzidos em processo de conformação.
Quanto às lápides, a restauradora aponta o emprego comum de pedras como arenito, mármore, granito e basalto; as cerâmicas (terracota) ou, ainda, porcelanas pintadas à mão. Mas são os arenitos que prevalecem, tanto o rosa quanto o cinza. Parte desses elementos era importada e outros fabricados tanto em Joinville quanto no Rio Grande do Sul, quando se estabeleceram imigrantes artesãos.
Distinguir os diferentes elementos que ornamentam os túmulos dão outra perspectiva nas incursões pelo espaço. “Os artefatos, como o ferro forjado, se encontram nos túmulos do topo do cemitério, área que concentra as sepulturas mais ricas do ponto de vista artístico”, diz ela. “Se percebe na arquitetura tumular a mesma do centro da cidade”, compara.
Sobre o Cemitério do Imigrante de Joinville – O espaço é um dos raros exemplos de “campo santo” do século 19 ainda preservado no Brasil e que remetem ao período de colonização europeia no país.
O antigo Cemitério de Joinville é o segundo local escolhido pelos primeiros imigrantes da Colônia Dona Francisca para sepultamentos. O primeiro foi instalado, em 1851, na Rua do Porto (Hafenstrasse), hoje Rua 9 de Março. Mas o local era vulnerável a inundações.
Por iniciativa do pastor protestante Jacob Daniel Hoffmann, em dezembro de 1851, buscou-se outro local para os sepultamentos, na colina do Caminho do Meio (Mittelweg), em lote doado pela Companhia Colonizadora de Hamburgo –hoje Rua 15 de Novembro, centro da cidade.
No contrato firmado, quatro morgos de terra foram destinados para um cemitério que atendesse tanto aos fiéis evangélicos luteranos quanto aos católicos romanos, que passou a ser denominado Cemitério de Joinville. O primeiro sepultamento foi do ex-tenente da Marinha de Schleswig-Holstein, Carl Andreas von Bürow, que faleceu no dia 26 de dezembro de 1851, aos 27 anos de idade.
Em 1857, foi construída ao lado a casa do coveiro, hoje a “Casa da Memória do Imigrante”, para abrigar o coveiro e sua família. É uma das mais antigas construções de Joinville.
A partir de 1871, com a abertura do Cemitério Paroquial ao lado da Igreja Matriz (hoje, Catedral São Francisco Xavier), destinado exclusivamente ao enterro de católicos, o antigo cemitério foi reservado apenas aos protestantes, por isso passou a ser conhecido como Cemitério Evangélico (Evangelischer Friedhof).
Em 1913, com a inauguração do Cemitério Municipal, o Cemitério Evangélico foi fechado, mas até 1937 ainda ocorreram sepultamentos nos túmulos perpétuos. Há registros de aproximadamente 3.300 pessoas enterradas entre 1851 e 1937, embora atualmente restam apenas 490 jazigos.
O local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1962, como patrimônio histórico e paisagístico brasileiro. Uma comissão de voluntários, liderada por Hilda Anna Krisch, foi criada pelo Executivo Municipal para cuidar do espaço, que a partir dessa época passa a ser conhecido como Cemitério do Imigrante. A antiga Casa do coveiro foi residência particular até, por iniciativa de Hilda Anna Krisch, ser adquirida pelo governo municipal em 1984, que ali instalou a Casa da Memória.