Parece óbvio pensar na relação entre estes dois conceitos, felicidade e saúde mental, mas podem ocorrer certos equívocos nesta interpretação, sendo importante refletir sobre estes. Na atualidade existe uma ordem social de “ser plenamente feliz”, onde nada abale, e caso sim, que tudo passe rápido e que não deixe rastros. Para falar sobre mito da felicidade e/ou idealização da vida, certamente exige-se uma maior profundidade teórica, mas cabe aqui alguns pontos importantes para iniciar este diálogo.
Segundo Pinto e Moura (2022) a felicidade deixou de ser um direito e passou a ser um dever, como um modo de vida no qual a tristeza e o desprazer não são permitidos, e que ao não se ter espaço para estes sentimentos, também pode trazer prejuízos a vida dos indivíduos. Assim como a alegria, a tristeza é considerada uma emoção necessária frente aos acontecimentos da vida, sendo essencial para enfrentamento dos desafios, para ressignificar o que surge destes e estruturar a experiência subjetiva.
Contribuem para a perpetuação a concepção do mito da felicidade, o acesso as redes sociais e a ausência de uma visão crítica aos conteúdos postados, nos quais os parâmetros tornam-se inatingíveis, pois apresentam uma distorção da realidade podendo ocasionar um sentimento de inadequação e sofrimento emocional.
A denominação de saúde mental já contrapõe a esta “idealização”, a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1998) a define como um estado de bem-estar no qual o indivíduo desenvolve suas habilidades pessoais, consegue lidar com os estresses da vida, trabalha de forma produtiva contribuindo para a sua comunidade. Este conceito não associa a saúde a ausência de doenças, assim como a um prazer constante, mas aos movimentos internos de busca e de enfretamento de tais situações vividas. Posiciona, um sujeito ativo socialmente, que atua sobre o meio, mas também é por ele modificado. Desta maneira, se considera que os fatores que interferem na saúde mental e na felicidade não são somente da ordem individual, mas sim da coletividade, como por exemplo, as questões socioeconômicas, climáticas, políticas, educacionais, entre outros. Tal consideração, já descarta a felicidade inabalável, pois somos inter-relacionados e sofremos os impactos da vida em sociedade.
Então, caro (a) leitor (a) nem sempre a tristeza, a ansiedade, e as inquietações emocionais são sinônimos de infelicidade ou de patologias, elas podem estar cumprindo os seus papéis nos processos de elaboração dos eventos estressantes e auxiliando na elaboração das frustações. Mas, é preciso ter indicadores de quando estes sintomas precisam ser avaliados, segue dois destes:
– Intensidade: sentir cada vez mais forte e com maior recorrência no dia e/ ou na semana.
– Impacto: interfere na realização das atividades que desempenha no dia a dia (não consegue fazer com o mesmo desempenho ou deixou de fazer).
Caso perceba que algo que era para ser transitório mediante alguma situação, permaneça ou que sinalizem para você alteração no seu comportamento, procure conversar com alguém de sua confiança e avalie à necessidade de buscar um apoio profissional.
Referências:
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório sobre a saúde no mundo 1998: vida no século XXI – uma perspectiva para todos. Genebra: OMS, 1998.
PINTO, V. R. B. .; MOURA, E. P. G. de. O Imperativo da Felicidade na Contemporaneidade. Revista Subjetividades, [S. l.], v. 22, n. 3, p. e12646, 2022. DOI: 10.5020/23590777.rs.v22i3.e12646. Disponível em: https://ojs.unifor.br/rmes/article/view/12646.
