A companhia aérea brasileira Azul anunciou, nesta quarta-feira (28), que entrou oficialmente com um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos. A medida encerra meses de incertezas e tenta aliviar a enorme pressão sobre as finanças da empresa, fortemente impactadas desde a pandemia de Covid-19.
O processo ocorre sob o chamado Chapter 11, a lei de falências norte-americana, mecanismo frequentemente utilizado por empresas estrangeiras com ativos e dívidas em dólar. A decisão chega após sucessivas tentativas de reestruturação extrajudicial, que não foram suficientes para equilibrar o caixa.
Mercado reage com queda brusca nas ações
A repercussão no mercado foi imediata. Antes mesmo da abertura dos mercados norte-americanos, os ADRs (recibos de ações) da Azul, negociados nos Estados Unidos, desabaram quase 30%, refletindo a preocupação dos investidores com o futuro da companhia.
Fusão com a Gol deve ser congelada
Além do impacto financeiro, o pedido de recuperação também freia, pelo menos por enquanto, as negociações de uma possível fusão com a Gol. A Azul se junta, assim, a uma lista crescente de companhias aéreas latino-americanas que precisaram recorrer a processos semelhantes após a crise sanitária global, como Avianca, LATAM Airlines, Aeroméxico e a própria Gol.
“Hora de limpar o balanço”, diz presidente da Azul
Em entrevista à agência Reuters, o CEO da Azul, John Rodgerson, reconheceu que o endividamento da empresa disparou nos últimos anos, em especial devido aos efeitos da pandemia.
“Tínhamos muitas dívidas no balanço, principalmente devido à Covid. Agora temos a oportunidade de limpar tudo”, afirmou o executivo.
Rodgerson se mostrou otimista e disse que o objetivo é que o processo de recuperação judicial seja rápido. “Acreditamos que podemos entrar e sair antes do final do ano. Já começamos o processo com a saída em mente e com o financiamento garantido”, completou.
Acordos fechados e reforço no caixa
Para viabilizar o processo, a Azul informou que já fechou acordos com os principais credores e parceiros estratégicos. Estão entre eles:
- As arrendadoras de aeronaves, como a AerCap;
- As companhias parceiras United Airlines e American Airlines;
- Além dos detentores de títulos de dívida.
O plano prevê um pacote robusto de apoio financeiro, incluindo:
- US$ 1,6 bilhão em financiamento DIP, que garante liquidez durante a reestruturação;
- Eliminação de mais de US$ 2 bilhões em dívidas;
- E até US$ 950 milhões adicionais em financiamento via equity (aumento de capital).
Desafios que agravaram a crise
Apesar de ter fechado, no ano passado, acordos importantes com arrendadores — que permitiram abater cerca de US$ 550 milhões em dívidas em troca de uma participação acionária de 20% — e com credores financeiros para levantar mais US$ 500 milhões, os desafios externos se mostraram persistentes.
Dois fatores pesaram contra a recuperação:
- Problemas na cadeia global de suprimentos, que atrasaram entregas de novas aeronaves e serviços de manutenção;
- E a forte desvalorização do real frente ao dólar, que aumentou consideravelmente os custos financeiros da empresa.
“O que eu costumava pagar em juros em 2019 aumentou 10 vezes com uma moeda 50% mais fraca”, lamentou o presidente da companhia.
Próximos passos no processo
A Azul explicou que, ao fim do processo, os recursos do empréstimo DIP serão quitados por meio de uma oferta de direitos de ações de até US$ 650 milhões, já apoiada pelos parceiros financeiros. Além disso, há o comprometimento de um investimento adicional de até US$ 300 milhões pelas companhias United e American, reforçando a confiança na continuidade da operação.
O plano, segundo a própria empresa, é sair do processo de recuperação judicial ainda em 2025, com um balanço mais saudável e melhores condições de competir no mercado.