O anúncio do governo dos Estados Unidos de que aplicará uma tarifa de 50% sobre determinadas exportações brasileiras gerou forte preocupação no setor industrial catarinense. De acordo com avaliação de especialistas ligados à indústria, a medida pode prejudicar de forma severa os embarques de produtos brasileiros para o mercado norte-americano, especialmente os oriundos de Santa Catarina.
Diplomacia e investimentos em risco
Representantes do setor destacam a importância da atuação da diplomacia brasileira para manter abertos os canais de negociação. Segundo análise técnica, sem uma resposta coordenada e pacífica por parte do Brasil, há risco de agravamento do cenário, incluindo o cancelamento de investimentos estrangeiros no país.
O momento, segundo os analistas, exige serenidade e foco na defesa dos interesses econômicos nacionais. “É necessário buscar a melhor solução por meio do diálogo”, afirmam.
Três dimensões da decisão americana
A taxação anunciada é vista como preocupante sob três diferentes perspectivas:
- Econômica: Especialistas apontam que não há justificativa econômica para a aplicação da tarifa, considerando que os Estados Unidos têm, há décadas, um superávit na balança comercial com o Brasil.
- Soberania nacional: As decisões políticas internas do Brasil devem ser respeitadas, mesmo que não agradem a todos os parceiros internacionais. O país tem autonomia para conduzir suas políticas, sejam elas acertadas ou não.
- Diplomacia internacional: A postura brasileira em fóruns e alinhamentos diplomáticos tem, segundo alguns analistas, se distanciado da tradicional neutralidade. Isso pode estar influenciando decisões estratégicas por parte de países como os EUA.
Santa Catarina pode ser duramente afetada
Embora os detalhes sobre a nova tarifa ainda não tenham sido totalmente divulgados, a possibilidade de taxação já coloca a indústria catarinense em estado de alerta. O temor é que a competitividade dos produtos locais seja reduzida drasticamente, especialmente se países concorrentes continuarem enfrentando tarifas menores para acessar o mesmo mercado.
Os Estados Unidos são atualmente o segundo maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino das exportações de Santa Catarina. Somente em 2023, o estado exportou cerca de US$ 1,74 bilhão para o país, com destaque para itens manufaturados como produtos de madeira, motores elétricos, peças de motor e cerâmica.
Relação comercial historicamente favorável aos EUA
A relação econômica entre Brasil e Estados Unidos é longa, robusta e estratégica, com mais de 200 anos de parceria. No entanto, os dados mostram que essa relação tem sido bastante favorável aos norte-americanos. Segundo informações da Confederação Nacional da Indústria (CNI), os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil há mais de 15 anos. Na última década, o saldo positivo foi de US$ 91,6 bilhões apenas na troca de bens. Ao incluir serviços, esse valor salta para US$ 256,9 bilhões.
O Brasil é, inclusive, uma das poucas economias relevantes que mantém superávit comercial em favor dos Estados Unidos.
Descompasso nas tarifas aplicadas
Outro ponto destacado pela CNI é a discrepância entre as tarifas praticadas pelos dois países. Em 2023, a tarifa real de importação aplicada pelo Brasil aos produtos norte-americanos foi de apenas 2,7%, valor quatro vezes menor que a tarifa nominal de 11,2% registrada na Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa diferença, segundo especialistas, reforça a assimetria que já existe nas relações comerciais entre os dois países.
Impacto para milhares de empresas
A CNI também estima que aproximadamente 10 mil empresas brasileiras serão diretamente impactadas pela nova tarifa dos Estados Unidos. A preocupação é ainda maior em estados como Santa Catarina, que têm forte vocação exportadora e dependência de mercados internacionais para o escoamento de seus produtos industriais.
Diante desse cenário, o setor industrial defende que o governo brasileiro atue de forma estratégica para preservar os interesses nacionais e evitar prejuízos ainda maiores à economia.