A palavra “normal” parece ter o peso de uma sentença. Quando alguém pergunta “isso que estou sentindo é normal?”, o que está sendo perguntado, na verdade, é: posso continuar vivendo assim ou algo em mim precisa ser consertado?
Durante muito tempo, a medicina tentou responder essa pergunta com um gesto objetivo. Criamos critérios. Mapas. Estatísticas. Modelos ideais de funcionamento. Definiu-se que ser normal era não ter sintomas. Ou era se parecer com a maioria. Ou era se sentir bem. Mas todas essas respostas falham quando confrontadas com a experiência concreta da vida.
Afinal, a maioria das pessoas sente ansiedade, tristeza, raiva, dúvida, medo — e isso nem sempre significa que há algo de errado acontecendo. Por outro lado, há quem esteja profundamente adoecido e, ainda assim, diga com convicção: “estou ótimo”.A resposta não é tão simples quanto parece.
Talvez o problema esteja na pergunta. Talvez “ser normal” não seja um estado fixo, mas um processo. Talvez a saúde mental seja menos sobre seguir uma curva estatística e mais sobre ser capaz de viver com alguma liberdade diante do que se sente.
Liberdade — eis um critério que me convence.
Liberdade não no sentido liberal de fazer o que quiser, mas no sentido existencial: ser livre para escolher como responder ao mundo, mesmo quando ele nos fere. Ser capaz de se mover internamente, de criar sentido, de rir do próprio tropeço, de pedir ajuda, de recomeçar. A doença mental, nesse contexto, não é simplesmente um excesso de sintomas. É um empobrecimento da vida psíquica, um estreitamento da existência.
O psiquiatra francês Henri Ey dizia que se as doenças físicas ameaçam a vida, as doenças mentais ameaçam a liberdade. Cyro Martins — meu conterrâneo gaúcho e também psiquiatra — completava com lirismo: saúde mental é ter senso de realidade, de humor e de poesia. Três coisas que, quando faltam, fazem a vida endurecer.
Nesse sentido, uma pessoa pode estar aparentemente “funcional” — trabalhando, estudando, pagando boletos — e ainda assim estar adoecida, se perdeu o fio poético da própria existência. Por outro lado, alguém em sofrimento pode estar, ao mesmo tempo, em profundo processo de cura, se ainda conserva a possibilidade de brincar com as palavras, de se emocionar com um verso, de se espantar com um gesto de afeto.
Por isso, como profissional de saúde mental, minha tarefa não é normalizar ninguém — mas ampliar suas possibilidades. Ajudar quem me procura a recuperar, ainda que aos poucos, esse campo interno onde mora a liberdade de ser.
A partir desta edição, passo a escrever quinzenalmente esta coluna no Jornal da Cidade. Quero que este espaço seja mais do que um informativo sobre saúde mental: desejo que ele provoque reflexão, convoque escuta, e talvez ofereça algum alívio. Se quiser pensar junto comigo — sobre o sofrimento e o cuidado, sobre o que nos adoece e o que nos reinventa —, nos encontramos novamente em quinze dias.
