Proposta do Conape acende sinal de alerta no setor pesqueiro
O Conselho Nacional de Aquicultura e Pesca (Conape) propôs na última semana a inclusão da corvina na lista de espécies ameaçadas de extinção. A sugestão, que agora será analisada pelo Ministério do Meio Ambiente, tem gerado apreensão entre representantes do setor, como o Sindicato dos Armadores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região (Sindipi). A entidade defende uma reavaliação com base em dados atualizados.
Do status “seguro” à categoria de “vulnerável”
Até então considerada uma espécie com risco mínimo de extinção — classificada como “LC” (Menos Preocupante) — a corvina pode ser elevada à condição de “vulnerável”, dentro do Plano de Recuperação de Espécies Aquáticas Ameaçadas. O plano federal contempla 24 espécies, majoritariamente marinhas, com ações voltadas à preservação. A possível reclassificação pode impactar diretamente a atividade pesqueira da região Sul do Brasil.
Sindicato teme consequências para o setor
O Sindipi expressou preocupação com a proposta, especialmente pela indefinição em torno do plano de gestão da corvina. Aprovado em março pelo Comitê Permanente de Gestão da Pesca (CPG Demersais SE/S), o plano ainda não foi publicado oficialmente. Segundo o sindicato, se a nova classificação for confirmada, o documento pode ser substituído por um plano de recuperação, assumido exclusivamente pelo Ministério do Meio Ambiente, o que limitaria a participação do setor produtivo.
Espécie popular e acessível
A corvina é um peixe de grande aceitação no mercado, conhecido pelo preço acessível. Frequentemente usada como substituto do bacalhau, é vendida em média por R$ 19,99 o quilo em mercados como o de Itajaí. Com peso médio entre dois e cinco quilos, sua pesca é mais abundante entre agosto e outubro, principalmente no litoral de Santa Catarina e Paraná.
Ciência aponta falta de gestão contínua
Pesquisadores avaliam que o problema não está exatamente na situação biológica da espécie, mas sim na ausência de uma gestão pesqueira eficaz. O professor Paulo Ricardo Schwingel, da Univali, destaca que a rotulagem da corvina como “vulnerável” é reflexo da incapacidade dos órgãos ambientais e pesqueiros em acompanhar e regular o estoque da espécie.
“Sem dados atualizados e limites de captura estabelecidos, a gestão se torna ineficaz”, afirma. Para ele, o ideal seria um sistema contínuo de monitoramento que permitisse decisões baseadas em evidências.
Avaliação técnica confirma sobrepesca
O professor Roberto Wahrlich, também da Univali e coordenador do Projeto de Monitoramento da Atividade Pesqueira em SC, confirma que os dados mais recentes indicam sobrepesca da corvina no Sul e Sudeste do Brasil. Segundo ele, a biomassa atual da espécie está abaixo do nível sustentável, e a taxa de captura é maior do que o recomendado. Tais dados reforçam a necessidade de medidas urgentes de ordenamento pesqueiro.
Projetos em andamento visam fornecer soluções
Santa Catarina tem investido em iniciativas como o projeto Biopesca SC, que há mais de um ano analisa recursos pesqueiros do estado. Financiado pela Fapesc e com apoio de instituições como Univali, UFSC, IFSC e a Secretaria Estadual da Pesca, o projeto busca oferecer subsídios científicos para decisões futuras. A expectativa é de que os primeiros resultados práticos possam ser utilizados já em 2026.
“É fundamental que o Estado continue apoiando a geração de dados confiáveis e contínuos”, diz Schwingel. “Somente com esse respaldo é possível construir políticas pesqueiras sustentáveis que preservem as espécies e mantenham a atividade econômica viva.”