O esporte sudanês perdeu um de seus maiores nomes no último sábado. O corredor Abubaker Kaki, de 35 anos, bicampeão mundial indoor nos 800 metros e duas vezes atleta olímpico, foi morto durante um ataque aéreo em El Fasher, cidade localizada na região de Darfur do Norte. O bombardeio atingiu a residência do ex-atleta, segundo divulgou o portal Telecom Asia Sport.
Kaki estava aposentado desde 2016, mas seguia como referência do atletismo nacional. Ele ganhou notoriedade mundial ao conquistar os títulos dos 800 metros indoor em Valência, em 2008, e em Doha, em 2010. Em Valência, inclusive, fez história ao se tornar o campeão mais jovem da prova, com apenas 18 anos.
Herói do esporte sudanês
Além das conquistas em mundiais, Kaki também levou o nome do Sudão às Olimpíadas de Pequim, em 2008, e Londres, em 2012. Em sua estreia olímpica, chegou até a semifinal, e no mesmo ano estabeleceu o recorde mundial júnior dos 800 metros, com o tempo de 1min42s69 — marca que ainda impressiona especialistas da modalidade.
Sua carreira, marcada por velocidade e força, foi interrompida precocemente em 2016 devido a lesões. Apesar disso, ele deixou um legado de superação e orgulho para o povo sudanês, especialmente em um país onde o acesso ao esporte de alto rendimento é limitado.
Sudão mergulhado na maior crise humanitária atual
A morte de Kaki ocorre em meio a uma grave guerra civil que assola o Sudão desde abril de 2023. Os confrontos entre o Exército regular e forças paramilitares transformaram diversas cidades em zonas de conflito intenso, incluindo El Fasher, onde o ex-atleta vivia com sua família.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o país vive atualmente a maior crise humanitária do mundo. Cerca de 12 milhões de pessoas já foram forçadas a deixar suas casas desde o início dos combates — número que cresce a cada semana, diante da violência generalizada e do colapso dos serviços públicos.
Símbolo de uma geração e vítima da guerra
A morte de Abubaker Kaki não é apenas uma perda para o esporte, mas também um retrato da tragédia humanitária que atinge milhões no Sudão. O ex-atleta, que tantas vezes levou alegria ao seu povo com conquistas internacionais, agora se torna símbolo do sofrimento causado por uma guerra que já dura dois anos e não dá sinais de cessar.
Enquanto o mundo lamenta a perda de um talento esportivo, a comunidade internacional segue pressionada a buscar soluções para conter a escalada de violência no país africano — onde nem mesmo os heróis olímpicos estão a salvo.