No Hospital SOS Cárdio, localizado em Florianópolis (SC), um marco inédito na medicina brasileira foi alcançado em 11 de agosto de 2023. Pela primeira vez no país, um dispositivo de eletroestimulação para combater a depressão resistente foi implantado com sucesso. Essa inovação representa uma nova esperança para aqueles que enfrentam a forma mais desafiadora da depressão.
Uma Abordagem Promissora
Selecionados pela equipe psiquiátrica do hospital, dois pacientes passaram por um protocolo de tratamentos convencionais para o transtorno, sem obter resultados satisfatórios. Eles foram escolhidos para receber o implante do dispositivo de eletroestimulação, que apresenta semelhanças com um dispositivo utilizado para controlar crises epiléticas, já em prática no Brasil há duas décadas.
O Funcionamento do Implante
O dispositivo age estimulando o nervo vago, um componente crucial para os estímulos involuntários do nosso organismo. Este nervo percorre atrás das orelhas, estendendo-se até a região do tórax e abdome, conectando o tronco cerebral à maioria dos órgãos essenciais. Funciona como uma espécie de via para impulsos elétricos, transmitindo ao cérebro informações sobre o estado físico.

O neurocirurgião Wuilker Knoner Campos, pioneiro no procedimento, explica que a estimulação do nervo desencadeia impulsos elétricos que ativam áreas do cérebro associadas às emoções humanas, melhorando o humor e aliviando a depressão.
Cirurgia Segura e Promissora
A cirurgia para implantar o dispositivo de tratamento da depressão resistente requer anestesia geral e envolve duas incisões: uma próxima à clavícula e axila esquerda, para alojar o gerador, e outra próxima ao pescoço, onde os eletrodos são conectados ao nervo. O funcionamento do aparelho assemelha-se ao bem-conhecido marca-passo cardíaco.
Riscos
Campos assegura que os riscos da cirurgia são baixos e o paciente recebe alta no mesmo dia. Embora o implante possa ser removido, a indicação para tal procedimento é rara, limitando-se a casos de infecção ou intolerância aos estímulos. Devido à natureza crônica da depressão, o tratamento é contínuo, o que sugere que a alta pode não ser uma opção comum.
Quem Pode se Beneficiar do Implante?
Os pacientes elegíveis para esse tipo de implante já devem ter passado por tratamentos para a depressão resistente, sem obter resultados satisfatórios. Entre as opções estão o uso de cetamina, estimulação magnética transcraniana e eletroconvulsoterapia. Os primeiros dispositivos utilizados foram doados pela empresa LivaNova dos EUA.
Perspectivas Futuras
Dispositivos semelhantes na neurocirurgia estão ganhando popularidade e representam um avanço significativo na vida dos pacientes. Além do tratamento da depressão, existem técnicas análogas para abordar outras condições, como Parkinson, distúrbios de movimento, toque e agressividade, bem como para inibir os sinais de dor.
Desafios no Tratamento da Depressão Resistente
Segundo o psiquiatra e professor da UFPE, Rodrigo Marques, a depressão refratária apresenta um quadro mais desafiador para tratamento em comparação com a maioria dos casos. Além das limitações clínicas, o diagnóstico preciso e o estigma associado ao tratamento da saúde mental representam obstáculos adicionais.
A psiquiatra e professora Catarina de Moraes Braga, mestre em neuropsiquiatria e ciências do comportamento pela UFPE, destaca a importância de verificar a eficácia dos tratamentos anteriores e a necessidade de desestigmatizar a depressão, incentivando os pacientes a buscar ajuda mais cedo.
Essa inovação marca um passo significativo no tratamento da depressão resistente e abre portas para novas possibilidades na área da saúde mental no Brasil.